Celina Portella | PUXA | 11 de Setembro

Do comando e da interjeição

Devemos olhar para o sujeito como um campo de tensões
Giorgio Agamben, “Profanações”

São homens e polias que engendram em si os campos de um sistema de forças, como pareciam também pequenos os seres que habitavam a ilha de Lilliput. Numa língua outra – por ora não cabe aqui ser traduzida ­­­– tinham sucesso na tentativa de prendê-lo à terra. Preso no entanto, não estava parado. Era aquele deitado no chão um gigante ou eram aqueles que puxavam pequenos demais? Era preciso entender da escala do humano.

Disse Barthes na sua Mitologia que os brinquedos são microcosmos, reproduções em miniatura dos objetos que tencionam o ser adulto. Em “Puxa”, o corpo da artista encontra-se em miniaturas, de proporções variadas, em posições que denotam ações. Num eco de Newton, disse Barthes, são dinâmicos.

Gangorras, balanças, motores, balanços, máquinas, máquinas, balanços, motores, balanças e gangorras em que a fotografia apresenta-se transbordando a bidimensionalidade dos trabalhos apresentados na parede, num salto em direção ao escultórico. O corpo, que integra fundamentalmente a obra de Celina desde os estudos no campo da dança, ainda é atravessado pela ação performática. Ecoam na mostra os corpos desemparelhados das vídeoprojeções, que encaixam-se nos recortes de uma moldura, como na série “Quadros cortados”. Há no entanto uma performance de outra ordem em curso nos foto-objetos de Celina: a da física.

É neste campo fundamental que a ideia de atuação, aqui entendida em sua ordem científica, extrapola a representação e ganha protagonismo na propriedade de transmitir forças. Em “Puxa”, não mais na forma, mas através das próprias molduras que as imagens bidimensionais ganham, além de profundidade, um peso que dialoga com a representação da força que a artista emprega em cada uma das fotos que constroi. A coreografia das cordas no espaço expositivo trama conexões entre os trabalhos, mesmo que não estejam ligados entre si. Cada obra não apenas pertence a um lugar, mas em sua maioria almeja outro. Deixa claro – também em ficção, de onde vem o esforço para que ali se mantenha. É notável também que as máquinas em “Puxa” tornam-se mais sutis, numa tecnologia que resignifica-se através da simplicidade quase rudimentar.

O equilíbrio é frequentemente ligado à ideia de estar parado. No entanto tal ideia não leva em conta os campos todos que convergem e emergem tensões, internas e externas, numa espécie de antítese que funciona. Se os gregos foram fundamentais para a estruturação matemática, no campo que estuda o movimento, a physis, acertaram em cheio no nome que a deram: em português lê-se a palavra física, que significa nada mais que natureza. Partiram de um pressuposto falho: entendiam, ingenuamente, que o repouso é o estado natural dos corpos. É preciso debruçar-se sobre a natureza do humano.

Ulisses Carrilho