Lívia Moura | O presente não é obsceno | 19 de Junho

Notas sobre uma tentativa de habitar o presente

Alegria na cegueira – “Meus pensamentos” disse o andarilho a sua sombra, “devem me anunciar onde estou; não devem revelar para onde vou. Eu amo a ignorância a respeito do futuro e não quero perecer de impaciência e do ante-gozo de coisas prometidas”.
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência.

Entre os maiores males que acossam a humanidade hoje estão aqueles causados pela aceleração do tempo. O tempo, em si, algo de dificílima nomeação – “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei.” – não corre mais rápido em 2013 do que em 1700, mas a nossa experiência subjetiva do tempo, de sua duração, sim. Tal diagnóstico não é novo. Um filósofo como Walter Benjamin já nos falava, na primeira metade do século XX, da perda da experiência, perda esta que estava diretamente vinculada à uma mudança profunda no que tange a temporalidade.

A experiência (erfahrung), tal como nos diz Benjamin, foi atrofiada na modernidade. Sua atrofia deve-se a um estado de alerta da percepção às múltiplas possibilidades de choque existentes na cidade grande, ao aumento vertiginoso de informações a que o homem passa a ser submetido. No mundo moderno os homens são bombardeados cada vez mais por estímulos externos, que se transformam em choques.

Desta forma, Benjamin estava tentando compreender o funcionamento psíquico nas condições de existência típicas da modernidade. Pois a intensidade de estímulos da vida moderna, em contraposição ao apaziguamento do mundo pré-moderno, legou a este homem citadino um novo tipo de apreensão do mundo.

Se tal transformação já ocorria cem anos atrás, o que vemos hoje é uma radicalização profunda deste cenário. Um filósofo como Christoph Turcke se ocupa deste assunto em seu livro “Sociedade excitada: filosofia da sensação”. A novidade agora não é a quantidade de informação que uma metrópole despeja em cada um de nós ao sair da rua. Mas sim a quantidade de informação, de tempo gasto, de mensagens e aparições (Ser é ser visto) que envolvem a rede dentro de nossas casas ou nos locais de trabalho. Ou mesmo na hora do “lazer”. Estamos envoltos naquilo que Turcke chama de “distração concentrada”.[1] Em um contexto como esse a luta torna-se conseguir filtrar a quantidade de envios e a nossa compulsão por responder aos mesmos.

É sobre este pano de fundo que versa a exposição “O presente não é obsceno”, de Livia Moura. Escrevo antes da abertura da mostra, mas busco aqui tatear os pensamentos presentes nos trabalhos exibidos.

Na fachada da galeria, as portas de vidro estarão completamente lacradas com papeis brancos na noite de abertura. Na frente do público se dará uma performance na qual a artista irá desembrulhar tal “pacote” de aspecto asséptico. A aparente preservação do espaço será desfeita em favor do aparecimento daquilo que se encontra velado, maquiado pela embalagem. Surgem então imagens sobre este mesmo papel, no seu verso. Imagens nas quais vemos frutos apodrecendo, mas tal representação, em tudo contrária a limpidez da cena inicial, não é ilustrativa. Uma certa estranheza se instaura fazendo com que tenhamos que ver bem de perto as entranhas do “presente”.

Ora, já está claro, neste ponto, que a palavra presente possui aqui um duplo sentido. Tanto aquele do que se dá, como uma oferenda, oferta, uma manifestação de apreço, quanto de tempo atual, daquilo que ocorre naquele momento e, quando vemos, já passou.

A performance está intimamente ligada à efemeridade, a passagem do tempo. O seu acontecimento tem o poder de nos recordar tal fato. Tão óbvio mas que a contemporaneidade parece de alguma forma querer recalcar através de diversas estratégias de retardamento ou encobrimento do correr do relógio biológico.
Se os papeis de presente simbolizam um gesto de preservação, a ideia de tempo presente nos fala da importância da presença no aqui e agora. Nem antes, nem depois, agora. “Queremos ao menos uma vez chegar ao lugar em que já estamos”[2]. Este gesto que parece tão óbvio, na verdade, trata-se de uma das mais difíceis conquistas do homem na época atual.

Em realidade, nunca chegamos no futuro, e tampouco somos afeitos a acessarmos o passado, a ter na memória uma aliada, mas sim vivemos num contínuo presente amorfo. Amorfo porque acelerado demais. A sensação permanente é de que não damos conta, não alcançamos nunca a meta, há sempre algo que nos falta. Isso é da lógica do desejo e do capitalismo. Lidar com ela é saber revirar em vida, ou seja, sublimar tal estado no qual nos tornamos reféns do tempo, no lugar de sermos sujeitos do mesmo.

Tal situação se reverte tanto em quadros de depressão, uma desistência diante da incapacidade de acompanhar tal ritmo cruel, ou ainda em sujeitos hiper-ativos, que surfam a onda buscando estar “up to date”, mas que igualmente padecem de uma experiência anêmica da vida, espécie de “Vida Nua”, como tão bem nos ensina Agambem.

Esta relação distanciada com o presente, no qual nos tornamos vítimas de sua pressa, se revela, por exemplo, nas fotos tiradas de momentos de festa e comemoração, imediatamente enviadas via celular. Ou seja, mais importante do que viver aquele momento é saber que alguém sabe que você esteve ali. Sendo que esta experiência de estar ali foi mutilada pela ânsia de precisar mostrar antes de vivenciar.

Em uma conversa com Livia ela afirmou: “obsceno é algo que não queremos ver, algo a ser negado. O presente pode ser algo tão medonhamente maravilhoso e misterioso que acaba sendo visto através de um filtro para, quem sabe, se tornar algo mais controlável.”

Nas imagens de frutos apodrecidos vistas após o gesto de rasgar, perfurar, derrubar, desfazer o que estava intacto, limpo, bem acabado, há tanto o registro daquilo que está vivo e, portanto, destinado a fenecer, quanto um certo erotismo sutil. Como se caminhar por esta região fosse nos aproximar de algo que, quem sabe, a experiência do encontro sexual/amoroso nos dá. Ali, o tempo é suspenso. Estamos, enfim, no presente. Octavio Paz e George Bataille escreveram belas linhas sobre esta capacidade do encontro amoroso/erótico nos conectar com o agora.

Notemos que Livia não ilustra tal cenário. Se o texto cumpre o papel de contextualizar o trabalho dentro de uma cena contemporânea ampliada, a obra da artista faz emergir todos estes “temas” na própria fatura do trabalho. O papel de presente, os desenhos que se desvelam no interior, o uso da fachada da galeria (espaço curto, vitrine que chapa tudo), o ato da performance que tem como elemento essencial a efemeridade, sem compromisso com a preservação da obra, todos estes elementos evocam as questões aqui mencionadas.

A jornada da artista em direção à construir uma iconografia que se debate sobre o desejo do homem de recalcar a única certeza que temos – a morte – prossegue dentro da galeria. Lá dentro são expostos 25 desenhos feitos com caneta BIC e produtos de limpeza nos quais delicados traços e uma criteriosa paleta dão “vida” à frutas apodrecendo ou alcachofras sendo despetaladas.

Na noite de abertura todos os desenhos estarão igualmente embalados com papel manteiga e serão alvo de uma ação na qual a artista irá desembrulhar cada um deles, deixando o público à vontade para participar. Fragmentos de papel irão ficar na galeria como rastros da ação.

O uso de produtos de limpeza para desenhar se constituí quase como que um paradoxo interno à obra. Ao mesmo tempo em que brada contra o recalque do passar do tempo, a artista faz uso de um material que tem como utilidade manter tudo limpo e preservado. Ou seja, o trabalho que remete a possibilidade de encontro com um ritmo mais orgânico, que não seja refém de uma sociedade que grita à todo o momento (mesmo que silenciosamente, o que é pior, pois se trata de uma ditadura que coloniza as subjetividades de maneira sorrateira): Seja produtivo! Esteja atualizado! Retarde o envelhecimento! Troque o seu iPhone 5 pelo 6! – esta mesma obra que versa contra esta corrente está ali, emoldurada, envernizada, pronta para ser vendida.

Seria mais coerente ela só existir como performance? Não creio. Penso que aquilo que permanece e nos faz pensar de maneira forte, no que significa a duração, a negociação com o tempo, seja lá qual for o “suporte”, possui a chance de ser um ente no mundo que ocupe um lugar de resistência.

A maior chance que temos de experimentar a vida de um modo mais íntegro, ou seja, estarmos, ao menos uma vez, no lugar em que já nos encontramos, e não ansiosos pelo por vir, tampouco melancólicos do que já passou, tal chance reside em compreender que o ímpeto por controle, perenidade, ou mesmo o encontro com a terra prometida, é fadado ao fracasso.

Livia Moura, em sua obra ainda em formação, busca uma medida na qual sim, devemos desejar, nos movimentar, sonhar, mas de tal modo que não nos tornemos sujeitos constantemente frustrados pelo vazio desta busca.

Em uma galeria chamada Inox, denominação para um tipo de aço que não oxida, não deixa de ser uma saudável inflexão o acontecimento de uma mostra que, sem pudores, afirma que o presente não é obsceno. Ou seja, aquilo que passa não deve ser negado, mas sim afirmado, pois se constituí no tecido de nossas vidas.

Luisa Duarte

[2] Ver o livro “A Caminho da Linguagem”, Martin Heidegger. Editora Vozes.