Renato Bezerra de Mello | Errático, errante | 12 de Abril

Errático, errante.

A arte contemporânea dissemina heranças: materiais, ordenações, capacidades de tratar conceitos, categorias, narrativas. Nos trabalhos recentes e inéditos de Renato Bezerra de Mello para a exposição na Galeria Inox, temos esta ampliação de meios e materiais bastante evidenciada. A exposição intitula-se “Errático, errante” e trata da invenção de ofícios no entorno de desenhos, bordados, vídeo e instalações. Renato permanece vinculado aos subterfúgios da memória e do apagamento. Para este projeto, no entanto, o artista se direciona mais aos modos de fazer, às possibilidades do brincar, e, assim, de habitar as fissuras do tempo, os intervalos, os momentos onde não cremos em nada, onde perdemos os sobressaltos. Na exposição, vemos pequenas esferas coloridas que se assemelham a bolas de gude. Esta imagem geométrica apresenta-se tanto em configurações tridimensionais sobre o chão da galeria, quanto em desenhos sobre cadernos e papéis finos. O que faz o artista assumir tal figuração é, simplesmente, a possibilidade de repeti-la, não mais como padrão, mas sim, como acontecimento desestruturante, errático, autômato. Tanto que sua maior atração é reconhecer e modelar tais imagens para eclipsá-las na pregnância da informação, exercitando mecanismos de invisibilidade.

São errantes os modos como Renato Bezerra de Mello lida com as imagens, aceitando o nomadismo de posições aleatórias, estimulando a opacidade de visões na sobreposição de papéis que por muito pouco mudam de lugar. Essas características permeiam a atuação do artista diante dos materiais e encenam utopias erráticas, fingindo repetir o idêntico. Em vídeo, enquanto se espera, o artista observa o fundo de um recipiente para guardar agulhas e alfinetes, e brinca com a imantação de outro material, reconfigurando a cena, abrindo alternativas de ordenação, barulhos. Ao mesmo tempo, o artista se estimula por revelar as texturas de sianinhas, os brilhos e cintilâncias de alfinetes: belezas fugidias. E vão-se criando vínculos em vez de mundos fixos e habitados.

Renato desenha contra o desenho, tal qual Rousseau fizera com a escrita. E por isso simplifica sua tarefa aumentando a complexidade de não achar caminhos principais ou secundários, aliás todo os caminhos escolhidos são secundários. Nas visões privilegiadas, mergulha-se numa “paixão errante”, termo que Maurice Blanchot usará para falar das estratégias do escritor. Com isso, reitera o filósofo, “depois de ser o caminhante inocente da juventude, ele é o itinerante glorioso que vai de castelo a castelo, sem conseguir se fixar no sucesso, que o expulsa e persegue”. Os itinerários artísticos de Renato lançam-no nesta atitude de caminhante, olhando a partir de gavetas para enxergar o tempo, seqüestrando os últimos exemplares de materiais para tratar a obsolescência, elaborando modos de armazenar, guardar, mesmo que a contradição esteja muito antes, habitando a própria fisicalidade dos materiais que estão sujeitos ao desaparecimento.

A exposição “errático, errante” reafirma, assim, a atitude de Renato Bezerra de Mello sobre as maneiras de desenhar, bordar, e, sobretudo, de lidar com o tempo na arte. O mundo circular não é infinito.

Marcelo Campos