Zé Angel | Clareira | 22 de novembro

Após a passagem da tempestade, um feixe de luz surge por detrás das nuvens cintilando o horizonte ainda obscuro. Clareira é esse espaço-entre. Pode ser uma fissura entre as nuvens, ou um recanto no meio da floresta densa onde a vegetação míngua. Enquanto metáfora, simboliza um momento de respiro ou trégua diante de uma situação desafiadora. Um refúgio. Na tentativa de traduzir o sentimento inefável contido no conjunto de obras apresentadas por Zé Angel, a palavra “clareira” surge como guia, mas também, enigma.
Nascido em Holguín (1992), Cuba, Zé Angel chega ao Rio de Janeiro em 2022 carregando consigo, além dos pertences, muitos sonhos para um futuro próspero e coletivo. Artista, professor e curador independente, busca expandir os imaginários em torno do Caribe contemporâneo, dos sincretismos e tensões geopolíticas vinculados aos processos migratórios. Cuba é lembrada por seus heróis guerrilheiros, mitos e estereótipos, embargos, mas também, silenciamentos: abarca complexidades que vão além da polarização política ou ideais revolucionários do passado – motivos pelos quais ainda é celebrada. A poética de Zé Angel rompe com todos os idealismos. É através da pintura que as lembranças pessoais se mesclam com a experiência coletiva daqueles que, hoje, veem-se obrigados a fugir em busca de melhores condições de vida, seja por falta de liberdade ou escassez de insumos. Ao partilhar cenas de bravura, fenômenos e ficções em alto mar, o artista tensiona a realidade documentada nos jornais, tendo como ponto de partida o horizonte caribenho. Sua abordagem, no entanto, é tão tempestuosa quanto as correntes que banham o Atlântico.

Rubens Takamine